Manny pertence a essa geração de tatuadores para quem cada linha gravada na pele ressoa como um tributo aos pioneiros da tatuagem tradicional elétrica. Herdeiro de um conhecimento precioso, ele trabalha com devoção para levar adiante esse legado, atento ao caminho pavimentado por aqueles que o precederam.
Tatuador, colecionador, artista e artesão, ele tatua com o coração, impulsionado por uma paixão genuína e um profundo respeito pela arte.

A cena underground de Atenas
Nascido na Alemanha Ocidental, filho de pais gregos, Manolis Panagiotou cresceu no cruzamento de culturas, entre suas raízes helênicas e uma vida diária moldada por um ambiente urbano contrastante. Foi o tatuador de Liverpool, Steve Crane, quem um dia o apelidou de Manny, um nome que ele carregaria para sempre.
Desde cedo, seu pai lhe transmitiu o amor pelo desenho, incentivando-o a usar o lápis não apenas para escrever, mas também para observar e contar o mundo à sua maneira. Ele recorda vividamente aqueles momentos em que, fascinado, observava seu pai esboçar pin-ups em um estilo típico dos anos 1960, lembrando os ícones popularizados por Gil Elvgren. Trinta e cinco anos depois, esse mesmo pai pediu a Manny para tatuar uma rosa em seu braço. Ele lembra com emoção: “Foi a primeira tatuagem dele… Uma experiência incrível para nós dois.”

Quando a família voltou para a Grécia, foi em Atenas que Manny passou sua adolescência, bem na turbulência dos anos 1990. Um adolescente jovem e selvagem, ele foi arrebatado pela energia crua da capital, que aguçou sua visão do mundo. “Eu me sentia em um filme,” ele recorda.
“Atenas era uma cidade difícil, afogada em drogas, bares underground, ocupações, protestos intermináveis e movimentos políticos fragmentados.”
Ele se lembra daquele mosaico urbano onde coexistiam distintas cenas musicais: punk, skinhead, rock, metal, rockabilly, gótico, new wave, techno… “e com certeza estou esquecendo algumas!” ele acrescenta com um sorriso, antes de concluir: “Foi a cultura punk que mais me agradou naquela época, e eu a abracei totalmente.”

O Nascimento de um Tatuador
Foi nas ocupações autogeridas de Atenas que Manny teve um encontro decisivo com Susanna. A tatuadora greco-alemã era uma figura icônica na cena punk local, respeitada por seu compromisso inabalável.
Ele lembra: “Ela estava sempre na linha de frente, seja em shows ou durante confrontos.” Foi ela quem o introduziu à tatuagem. Baseada na lendária Villa Amalias, “um ponto essencial para toda a cena underground grega,” ele observa, Susanna lhe fez sua primeira tatuagem. “Fiquei imediatamente hipnotizado,” ele recorda. “Fiquei tão viciado que lentamente comecei a tatuar meus braços, depois minhas pernas.”
Ela o guiou e, o mais importante, deu-lhe seu primeiro grande impulso: foi graças a ela que ele conseguiu suas primeiras máquinas do fabricante inglês Micky Sharpz, “as melhores da época.” Uma vocação nasceu, e nunca mais o abandonaria.

Antes da Internet, quando a história da tatuagem era transmitida apenas por meio de livros ou boca a boca entre entusiastas tatuados e artistas experientes, construir uma cultura da tatuagem era uma verdadeira busca pessoal.
Em seus primeiros dias, Manny vagava pelos quiosques de Atenas em busca de revistas especializadas do exterior, itens essenciais para quem queria entrar nesse mundo. Através dessas páginas, ele descobriu os pioneiros da tatuagem americana, os mestres do estilo japonês e tradições que às vezes haviam sido esquecidas.
Ele lembra: “Havia apenas uma banca, bem no centro da cidade, que vendia essas revistas de todo o mundo. Você podia encontrar revistas de motocicletas, revistas de tatuagem, revistas de música… Rapidamente se tornou um ponto de encontro improvável para entusiastas. Fortes amizades foram formadas lá, e elas ainda duram hoje.”
O Estúdio Black Rose
Naquela época, trabalhar como tatuador na Grécia exigia uma escolha de vida radical, longe das normas estabelecidas. O país, ainda relativamente isolado do resto do mundo, oferecia pouco espaço para essa forma de arte corporal. Manny recorda: “No final dos anos 70 e início dos anos 80, o lendário Jimmy administrava a única loja da cidade. Seus preços eram inacessíveis para a maioria das pessoas. A maioria das tatuagens, portanto, era feita em apartamentos particulares ou ocupações.”
Foi somente na virada dos anos 2000 que a arte corporal começou lentamente a ganhar maior aceitação. Naquele momento, havia apenas cinco ou seis estúdios em todo o país. Manny finalmente decidiu dar o salto e se profissionalizar, tornando-se tatuador e piercer. Com o piercing em alta, isso se tornou uma fonte significativa de renda. Com base em sua experiência, em 2005 ele abriu o Black Rose no coração de Atenas, aos pés da Acrópole.

Black Rose é muito mais do que apenas uma loja de tatuagens: é um verdadeiro santuário de liberdade, criatividade e transmissão. Manny se dedica a ela de corpo e alma, impulsionado pelo desejo de compartilhar seu mundo e seu conhecimento. Para ele, a tatuagem vai muito além da estética: é uma forma de ser e de pensar o mundo, uma linguagem visual e simbólica nutrida pela música e pela filosofia.
Orgulhoso de suas raízes helênicas, ele apresenta aos visitantes o Rebetiko, um gênero musical grego popular do início do século XX. Longamente suprimido pelo regime dos coronéis por suas letras supostamente subversivas, este estilo melancólico e autêntico é, a seus olhos, o equivalente sonoro da tatuagem tradicional elétrica: cru, espontâneo e livre, uma forma de expressão nascida nas margens.
Manny reflete: “Atenas é uma das cidades mais antigas do mundo, o berço da filosofia e da democracia. Por cerca de vinte anos, esta bela e eclética cidade foi meu lar. Tatuava pessoas de todas as esferas da vida lá, trocando ideias, experiências, música e filosofias.”

Por volta de 2012-2013, impulsionado por sua paixão pelo artesanato e pela mecânica fina, ele começou a produzir máquinas de tatuagem, cabos e pedais feitos à mão. Juntamente com seu amigo e parceiro, ele fundou a Black Cat Bone, uma pequena empresa independente dedicada ao artesanato de precisão.
Descobrindo os Pioneiros da Tatuagem
Após vários anos à frente de seu estúdio, Manny sente a necessidade de se aventurar além das fronteiras da Cidade dos Deuses. Em sua busca constante por novas experiências, o tatuador vê as viagens como uma forma de se reinventar. "Viajar sempre desempenhou um papel fundamental em minha vida", ele confidencia.
"Isso enriqueceu meu conhecimento, me ajudou a forjar fortes conexões humanas e ampliou minha compreensão desta forma de arte."

Ao longo de suas viagens, Manny se aprofunda no trabalho dos pioneiros da tatuagem tradicional elétrica. Em Istambul, ele conhece Danny Garcia: "Nos tornamos muito bons amigos. Ele fundou o lendário Inkstanbul Artcore, uma das lojas mais underground que já vi. O que acontece no Artcore fica no Artcore!” Danny o apresenta à sua coleção de máquinas de tatuagem americanas e o encoraja a começar a construir as suas próprias. Woods, do estúdio Hollyghost em Luxemburgo, o permite tatuar usando máquinas raras de Paul Rogers, Sailor Jerry, Owen Jensen e Charlie Wagner. O artista absorve a mecânica dessas ferramentas, que por sua vez inspiram seus próprios designs.

Shanghai Kate Hellenbrand, treinada por Sailor Jerry e próxima de Ed Hardy e Mike Malone, oferece-lhe seus conselhos e presenteia-o com alguns de seus desenhos. Em Jerusalém, ele é recebido por Wassim Razzouk, herdeiro de uma linhagem de tatuadores de 700 anos. Manny tem a rara oportunidade de manusear os tradicionais carimbos de madeira passados por 27 gerações, cada um carregando um simbolismo sagrado.
Mais tarde, ele forma uma amizade com Ernie Carafa, ex-associado de Paul Rogers, que lhe dá flashs de tatuagem originais e estênceis de acetato. "Esse período foi crucial", explica Manny. "Eu estava totalmente focado em estudar os velhos mestres, com o objetivo de reproduzir fielmente seus designs originais. Tive a sorte de permanecer próximo a Ernie até seus últimos dias."

Outros encontros cruciais marcam o caminho de Manny enquanto ele continua incansavelmente sua busca por conhecimento. Carmen Nyssen, historiadora e sobrinha de Bert Grimm, compartilha sua experiência com ele e o introduz à pesquisa de arquivo. Charlene Gibbons, filha de Artoria e Red Gibbons, também lhe oferece conselhos valiosos.
William Robinson, fundador do World’s Biggest Tattoo Museum, concede-lhe acesso às suas coleções excepcionais, máquinas antigas, fotografias raras e arquivos inestimáveis, todos tesouros que aprofundam a compreensão de Manny sobre as tradições da tatuagem. Guiado por uma abordagem paciente e rigorosa, e nutrido pelo estudo dos grandes mestres, Manny consegue forjar uma identidade artística profundamente enraizada na tradição.

Ele abraça plenamente suas influências: “Doc King e Amund Dietzel continuam sendo minhas principais referências. Eles trabalharam juntos na década de 1920 e criaram um estilo único que definiu a sua era.” Entre suas fontes de inspiração, uma figura se destaca com particular força: Sailor Jerry."
“Ele revolucionou a tatuagem old-school. Através de suas técnicas, ideias ousadas e conexões internacionais, ele trouxe um senso marcante de modernidade ao estilo.”
Manny também presta homenagem a outras figuras-chave que moldaram a história da tatuagem tradicional elétrica: Ed Hardy, cuja carreira trouxe à arte um reconhecimento sem precedentes; Mike Malone, Pinky Yun, Brooklyn Joe Lieber, Cap Coleman, Christian Warlich, Huck Spaulding, Paul Rogers... pioneiros que ele considera mestres, cada um à sua maneira.

O Projeto Tattoo Farm
Baseado no sudoeste da França desde 2018, Manny continua sua jornada mantendo os mesmos altos padrões e compromisso inabalável com seus princípios. Ele ainda desenha todas as suas folhas de flash à mão e tatua com máquinas que ele próprio constrói. "Eu mantenho a chama acesa", diz ele. "Ser um tatuador exige uma visão holística. Somente o tempo pode realmente julgar o valor de tal abordagem." Juntamente com sua parceira Athina, ele participa regularmente de festivais e convenções.
Com o tempo, ele notou uma mudança: "Em muitos festivais, vejo o espírito da tatuagem gradualmente desaparecendo. Felizmente, alguns eventos ainda mantêm a linha, como o de Mont-de-Marsan. Mais íntimo e mais comprometido, ele se destaca por sua abordagem artística genuína e promove conexões reais entre artistas e visitantes.

Lúcido, Manny observa as mudanças no mundo da tatuagem com um olhar crítico. Ele lamenta os efeitos da superexposição, das mídias sociais e da crescente padronização, que ele acredita terem enfraquecido a profundidade do ofício.
"Não sou contra a evolução, muito pelo contrário. Mas temos que ficar vigilantes. Às vezes perdemos o significado, a memória, as técnicas e os valores que são a base desta arte."
Para Manny, a responsabilidade de transmitir conhecimento é essencial. Num mundo onde cinco anos de prática são suficientes para rotular alguém como "veterano", ele acredita que é mais crucial do que nunca partilhar princípios sólidos com as gerações mais jovens, princípios enraizados no respeito, no compromisso e na memória do ofício.
Ao longo do tempo, Manny construiu um corpo de trabalho multifacetado: tatuador, historiador, artesão e transmissor de conhecimento, ele encarna uma figura rara na encruzilhada entre a prática e a memória. Mantendo-se fiel a esta visão, ele desenvolveu um projeto único: The Tattoo Farm Project. Na sua terra com vista para os Pirenéus, Manny e a sua esposa Athina pretendem acolher clientes num ambiente simples e acolhedor, longe do frenesi urbano. A ideia: oferecer estadias imersivas centradas na tatuagem, que misturam música, encontros casuais, conversas, tatuagens únicas e objetos feitos à mão.

Os clientes terão a oportunidade de escolher designs históricos da coleção pessoal de Manny (datados de 1860 até os dias de hoje) e sair com ilustrações originais, desenhos ou itens artesanais. O objetivo é claro: restaurar a conexão, dar substância à experiência da tatuagem e ir além de um serviço puramente estético para oferecer um momento de partilha e criação, enraizado tanto na história quanto no calor humano.
Para concluir, Manny faz questão de recordar a etimologia da palavra tradição, do grego: "aquele que transmite costumes e práticas", como um músico que não apenas toca as notas, mas também encarna a alma da peça. Da mesma forma, segundo Manny, um tatuador tradicional não apenas reproduz um estilo, ele carrega a sua memória viva.
Gostaríamos de agradecer à autora deste material, Alexandra Bayfotógrafa, escritora e pesquisadora da cultura da tatuagem, que tem documentado e contado as histórias de pessoas dedicadas a esta arte desde 1995.







