Lilian Raya é um nome conhecido na indústria da tatuagem, e qualquer verdadeiro entusiasta provavelmente reconhecerá seu trabalho à primeira vista. Seu portfólio revela um mundo vívido de personagens femininas — belas, poderosas e radiantes. Elementos da cultura mexicana permeiam quase todas as tatuagens, habilmente entrelaçados em cada composição, enquanto seu uso refinado da cor se destaca como uma das características definidoras de seu trabalho.
Ao longo dos anos, Lilian recebeu inúmeros prêmios, incluindo Melhor Cor na Viva la Tinta no México, Melhor Novo Estilo na Cidade do México, e um prêmio de Melhor do Dia em Barcelona. Ela também participou de grandes convenções internacionais como Barcelona, Paris e Gods of Ink, enquanto expandia seu papel na indústria através de julgamentos, educação e colaborações com marcas líderes.
Nesta entrevista, uma das tatuadoras mais reconhecidas do México, Lilian Raya, fala sobre como o mundo distinto de suas tatuagens ganhou vida, o papel que a cultura mexicana desempenha em seu trabalho, e compartilha insights sobre sua jornada profissional.
Lilian, somos grandes fãs do seu trabalho. Poderia nos contar um pouco sobre você — de onde você é e como sua jornada na tatuagem começou?
— Sou da Cidade do México. Comecei a tatuar há 10 anos. Sou uma tatuadora autodidata, e comecei minha jornada quando minha faculdade sugeriu que eu deveria me tornar uma tatuadora porque eu era muito boa em arte. Quando fiz minha primeira tatuagem em um amigo na sala de estar, eu nem tinha tatuagens no meu próprio corpo, mas me apaixonei desde a primeira peça que fiz. A partir daquele momento, soube que queria me tornar uma tatuadora profissional e queria seguir a tatuagem como uma carreira em tempo integral.
Nós até apresentamos seu trabalho em 2020, e mesmo assim você já era uma artista bem estabelecida. Como seu estilo e personagens evoluíram ao longo dos anos?
— Acho que minha arte evoluiu ao mesmo tempo em que eu também evoluí como pessoa e como profissional. Sinto que minha técnica melhorou muito. Além disso, a dimensão e as cores que uso em meus personagens e designs são muito mais complexas. Minhas composições se tornaram muito mais dinâmicas, e agora tento fazer todos os meus designs baseados na parte do corpo que vou tatuar, para que fluam elegantemente e sem esforço.
Estou tentando agora fazer peças muito maiores, como mangas completas nos braços e pernas, e também mais costas inteiras. O objetivo é me tornar uma artista que trabalha em projetos de corpo inteiro, mas sinto que minha jornada como tatuadora é uma jornada que sempre será cheia de aprendizado e aprimoramento constante. Há sempre muito mais para aprender, não importa o quão experiente você seja.
Seu estilo é uma mistura de neo-tradicional e anime. Como você chegou a essa combinação, e por que ela se tornou sua principal direção?
— É porque eu amo o neo-tradicional como estilo. Eu até tenho tatuagens tradicionais na maior parte do meu corpo. Mas sinto que fazer um trabalho um pouco mais focado no pop com muita cor é mais divertido para mim e para trabalhar como artista. Também mistura mais da minha personalidade e das coisas que gosto.
Também sinto que é um estilo que se pode sempre evoluir em diferentes direções e alcançar diferentes tipos de público. Acho que a diversidade no seu estilo como tatuador sempre oferece muito mais para aprender do que focar em apenas um único estilo por vez. Quero explorar mais estilos ornamentais, e também mais preto e cinza, que adoro fazer, mas não muitas pessoas pedem.
Como a cultura mexicana e seu ambiente artístico influenciaram seu trabalho?
— Acho que minha cultura está praticamente toda representada em meu estilo. A cultura mexicana, o folclore, as cidades e até a comida são cheios de cores vibrantes, contrastes e composições muito divertidas e vibrantes.
Além disso, sinto que os latinos em geral sempre têm uma abordagem muito divertida da vida e da arte. Somos pessoas muito trabalhadoras e apaixonadas por tudo o que fazemos e sentimos, e isso se manifesta em nossa arte. Sou uma mulher mexicana e latina muito orgulhosa, e espero inspirar minha comunidade a sempre se manter fiel às suas raízes, ter orgulho de sua herança e mostrá-la através de suas criações.
Suas tatuagens demonstram um forte entendimento de cor e composição. Quais habilidades ou conhecimentos tiveram o maior impacto em seu crescimento como artista?
— Acho que a teoria das cores tem sido uma constante na minha vida desde que comecei a desenhar e pintar quando era muito pequena. Sei como as cores funcionam e se combinam usando diferentes materiais e técnicas, então trabalhar com tinta de tatuagem se tornou um processo natural para mim. A tatuagem é apenas mais um tipo de tela e mais um tipo de cor.
Se você tem uma boa base em pintura, desenho e esboço, acho que pode se tornar um tatuador muito bom. Mas realmente acho que alguém que quer se tornar um artista de qualquer tipo deve ter pelo menos uma ideia de como a teoria das cores funciona.
Além disso, estudar muita arte, estudar história da arte e ir constantemente a museus me ajudou a treinar meu olho para procurar formas, contraste, luz e sombras em todas as minhas composições. No geral, não é apenas uma habilidade ou um conhecimento, mas um treinamento constante da mente e aprender a notar tudo o que pode ajudar nas suas criações.
Suas personagens femininas são tanto suaves quanto poderosas — há um claro senso de respeito e atenção à feminilidade. Foi uma escolha consciente ou algo que se desenvolveu naturalmente ao longo do tempo?
— Acho que foi natural porque sempre adorei criar personagens femininas desde muito jovem, mesmo antes de me tornar tatuadora. Sinto que as mulheres sempre têm um forte senso de feminilidade, e nosso mundo é muito mais diferente e sensível em comparação com o dos homens, e isso sempre se manifesta em nossa arte.
Acho que também retrato conscientemente as mulheres como fortes, porque sinto que elas não são apenas bonitas, mas também temos o direito de sentir muitas emoções como seres humanos — como raiva, tristeza e desejo de poder. Então, tento fazer com que minhas personagens sintam que têm sua própria personalidade e expressam uma emoção muito específica.
Também adoro fazer personagens femininas porque é um autorretrato de diferentes sentimentos que tenho e de diferentes fases que atravesso como mulher.
Poderia partilhar alguns dos seus projetos favoritos dos últimos anos? Há alguma história de cliente que a tenha marcado?
— Definitivamente, o meu projeto favorito foi o das costas completas que fiz há dois anos. Esse projeto realmente elevou o nível da minha qualidade e deu-me motivação para fazer projetos muito maiores.
Algo que me marcou sobre essa cliente é que fiz a sua primeira tatuagem, o que lhe deu muito mais confiança em si mesma e no seu corpo, a ponto de ela decidir que queria que eu fizesse as suas costas completas. Depois de fazer essa peça, ela tornou-se uma mulher muito mais confiante e começou a amar mais o seu corpo. Mesmo durante as sessões, pude ver a mudança na sua atitude e a confiança a melhorar a cada vez que nos encontrávamos. Foi muito bonito ver o quanto uma tatuagem pode afetar a confiança e o amor-próprio de uma pessoa.
Atualmente estou a fazer uma manga completa na perna em preto, num estilo mais neo-tradicional/ornamental, o que é muito diferente do que estou habituada a fazer, mas também muito emocionante de explorar. Esta é a primeira grande tatuagem da minha cliente, por isso ter a confiança dos meus clientes para este tipo de projeto é muito gratificante. Definitivamente, faz-me querer aprender mais e sair da minha zona de conforto através de projetos maiores.
Participou em grandes convenções internacionais e trabalhou como jurada. O que a interessa mais hoje em dia — competir ou avaliar os outros?
— Sim, fui convidada para julgar eventos líderes da indústria, como o Wild Tattoo Show em Namur, Bélgica; a México Tattoo Convention na Cidade do México; a Lima Tattoo Convention no Peru; a República Dominicana Tattoo Convention em Santiago, República Dominicana; e a Comic Ink em Santiago do Chile! Foi uma experiência incrível para mim julgar competições prestigiadas como estas porque todas elas foram as maiores convenções de tatuagem em cada país, e algumas das mais importantes quando se trata da Indústria Latino-Americana de Tatuagem.
Julgar competições de tatuagem nesses eventos importantes é algo de que me orgulho imenso. É uma honra ser reconhecida como especialista em uma indústria à qual me dediquei tanto. Estes eventos reúnem os melhores artistas de todo o mundo, com um nível de qualidade que vi poucas vezes durante todas as minhas viagens e visitas a convenções. Ser confiada para avaliar o seu trabalho é tanto humilhante quanto inspirador.
É muito difícil decidir entre os tatuadores mais talentosos a nível nacional e internacional, e vejo como uma responsabilidade manter os mais altos padrões enquanto celebramos a criatividade e a habilidade que definem a nossa arte.
Quando se participa, não se consegue ver muitos outros trabalhos porque se está focado na sua própria peça. Mas sinto que uma das melhores partes das convenções é poder ver o trabalho de outros artistas."
Como as convenções internacionais moldaram a sua perspetiva sobre a indústria da tatuagem?
— Acho que cada vez que vou a uma grande convenção internacional, isso me faz refletir sobre o meu trabalho e a minha abordagem profissional. Existem tantas perspetivas diferentes sobre a tatuagem como arte e como negócio. Conhecer artistas de diferentes países, culturas e origens sociais sempre ensina muito.
Também é muito revigorante aprender sobre novas tecnologias na indústria e manter-se atualizado. Acho que a única maneira de realmente entender o quão grande é a indústria é participando de grandes convenções. Você consegue ver as principais marcas de tatuagem, artistas e clientes, e conhecer pessoas que podem ajudá-lo a crescer como profissional, como pessoa e como negócio.
Você ministra seminários em diferentes países. O que você busca transmitir aos artistas mais jovens além das habilidades técnicas?
— Acho que, acima de tudo, ter uma boa ética de trabalho e aprender a sempre respeitar seus clientes é essencial. A tatuagem é algo que as pessoas carregam para a vida toda, então devemos tratar nossos clientes e nossa arte com o respeito que eles merecem.
Também os ensino a olhar além do lado comercial e técnico, e a entender que amar o que se faz e se divertir com isso é o que pode torná-lo obsessivo e ajudá-lo a se tornar um grande artista.
Além disso, conectar-se com sua criança interior os ajuda a encontrar seu estilo e algo que os torna diferentes. A autenticidade é o melhor caminho que você pode seguir como artista.
Como você consegue equilibrar tatuar, julgar e ensinar? Você ainda tem tempo suficiente para trabalhar de perto com os clientes?
— É realmente difícil, especialmente quando você trabalha sozinho, mas pode ser feito se você se organizar bem. Acho que ter um bom relacionamento com seus clientes e alcançar bons resultados envolve muita comunicação e respeito pelas ideias deles.
A maior parte da minha comunicação é digital, o que facilita muito. Também tenho um bom sistema de agendamento, já que a maioria dos meus clientes viaja. Sou eu quem responde às mensagens, então consigo conversar diretamente com eles sobre as suas ideias sem perder informações. Sempre mantenho a mente aberta sobre seus designs e tento sentar com eles para entender o que eles querem representar.
Como você vê seu estilo evoluindo nos próximos cinco anos?
— Definitivamente quero trabalhar em projetos de grande escala e, eventualmente, começar a fazer body suits completos. Também quero fazer mais projetos em preto e cinza e talvez misturar mais arte clássica e Art Nouveau em meu estilo.
Quero criar composições mais ornamentais e elegantes que fluam melhor com os músculos e o movimento natural do corpo. No geral, quero continuar trabalhando em projetos maiores e explorando novos estilos que posso fundir com o meu. Acho que não há limites quando se trata de criatividade.
Qual foi a fase mais desafiadora da sua carreira — algo que as pessoas geralmente não falam publicamente?
— Acho que a perda repentina da minha mãe no início da minha carreira de tatuadora foi o momento mais desafiador. Aconteceu durante meu primeiro guest spot internacional no Brasil. Lembro-me de tirar apenas duas semanas de folga e depois voltar a tatuar com o coração partido, mas muito focada em me tornar uma das melhores tatuadoras do mundo.
Naquela época, minha única escolha era desistir por causa da dor ou me tornar mais forte e trabalhar mais para realizar meus sonhos e me curar através de algo que amava. Eu também queria deixar minha mãe orgulhosa porque ela foi quem mais me apoiou.
Essa experiência me tornou muito mais forte, não apenas como artista, mas também como pessoa. Ela me deu resiliência e me mostrou como a arte pode te ajudar a curar de maneiras que você não pode imaginar.
Existem outras direções além da tatuagem — como pintura, arte digital ou colaborações — que você gostaria de explorar?
— Quando comecei a estudar design gráfico e arte, estava muito focada em me tornar ilustradora de livros infantis. Isso é algo que gostaria de explorar no futuro, mesmo que apenas uma vez.
Também adoro maquiagem, então talvez colaborar com uma marca de maquiagem que combine meu amor por tatuagem e maquiagem seria realmente interessante — talvez criando uma paleta de sombras. Também quero explorar mais a pintura e a cerâmica como hobby, sem necessariamente monetizá-los.
Hoje você é uma das tatuadoras mais reconhecidas do México. Que conselho ou mensagem você daria aos tatuadores emergentes?
— Nunca tente ser como outra pessoa. Inspirar-se em todos os lugares é importante, mas sempre volte para si mesmo, para a sua criança interior e para o que o faz feliz.
As pessoas se conectam muito mais quando você é você mesmo e quando compartilha um pedaço do seu coração e alma através da sua arte. Seja sempre um estudante, nunca um mestre. Respeite seus clientes, respeite o ofício e aprenda sobre o passado e o futuro. A tatuagem é um caminho de aprendizado sem fim.
E, acima de tudo: divirta-se e faça o que você ama — isso é o mais importante.
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